Danielle Bassil

Danielle Bassil

Saúde Mental com Escuta, Ciência e Atendimento em Português

Saúde Mental com Escuta, Ciência e Atendimento em Português

Angelica Vaughn

Angelica Vaughn

1. Daniele, conte um pouco sobre sua formação e trajetória profissional. O que a levou a escolher a área da psiquiatria e a atuar como Nurse Practitioner nos Estados Unidos?

Cheguei aos Estados Unidos aos 10 anos e, ainda muito jovem, atuei como intérprete médica para meus pais, em uma época em que esse suporte não era comum. O contato precoce com informações médicas complexas despertou em mim o desejo de seguir na área da saúde.

Minha trajetória foi marcada por desafios. Enquanto muitos imigrantes priorizavam o trabalho imediato, decidi investir na formação acadêmica, trabalhando em até três empregos para custear meus estudos. Iniciei minha carreira como auxiliar de enfermagem e intérprete médica, cursei Administração Médica e Enfermagem, tornando-me Enfermeira Registrada (RN), além de concluir o Bacharel em Ciências de Enfermagem. Com mais de 20 anos de experiência, atuei em áreas como médico cirúrgica, oncologia e doenças infecciosas, sempre com foco em um cuidado humanizado e acessível. Ao longo dessa trajetória, identifiquei a falta de profissionais especializados em psiquiatria para atender pacientes de língua portuguesa, especialmente em Cape Cod. Essa necessidade me levou a escolher a especialização em psiquiatria como Enfermeira de Prática Avançada. Hoje, tenho orgulho de ser a primeira profissional de saúde mental na região de Cape Cod habilitada a prescrever medicamentos psiquiátricos e atender pacientes em português, ampliando o acesso ao cuidado em saúde mental para a comunidade brasileira.

2. Quais tipos de atendimentos você realiza hoje e quais demandas aparecem com mais frequência no seu consultório?

Após concluir minha formação, fui aprovada no exame do ANCC, obtendo as licenças necessárias para atuar na área, e iniciei minha prática clínica na Northeast Behavioral, em Hyannis, atendendo pacientes ao longo de todo o ciclo de vida. Atuo com crianças a partir de 5 anos até adultos com mais de 80 anos, o que exige uma abordagem clínica individualizada, sensível às diferentes fases da vida. No consultório, as demandas mais frequentes envolvem transtornos de ansiedade e depressão, além do acompanhamento de pacientes com Transtorno Bipolar, TDAH, Transtorno Obsessivo-Compulsivo, esquizofrenia e Transtorno Esquizoafetivo.

3. Você pode explicar como é a primeira consulta, o acompanhamento e a construção do plano de cuidado para cada paciente?

A primeira consulta com uma PMHNPBC (Psychiatric Mental Health Nurse Practitioner – Board Certified) nos Estados Unidos é um momento fundamental para criar vínculo e compreender a história do paciente. Trata-se, geralmente, de um atendimento mais detalhado, que inclui uma avaliação psiquiátrica completa, considerando histórico clínico e psiquiátrico, uso de medicações, contexto familiar, social e cultural, além dos sintomas atuais. A partir dessa escuta cuidadosa, é desenvolvido um plano de cuidado individualizado, construído em parceria com o paciente. Esse plano pode envolver tratamento medicamentoso, orientações psicoeducativas e integração com psicoterapia, sempre respeitando as necessidades e os valores de cada pessoa.

O acompanhamento acontece por meio de consultas regulares, com avaliação contínua da evolução dos sintomas e ajustes do tratamento quando necessário. O foco é um cuidado contínuo, baseado em evidências e centrado no paciente, promovendo não apenas o controle dos sintomas, mas também a melhora da qualidade de vida ao longo do tempo.

4. De que forma o idioma e a cultura influenciam na qualidade do atendimento e na relação entre profissional e paciente?

Atender em português é um grande diferencial, porque permite que o paciente se expresse com mais clareza e conforto, especialmente sobre sentimentos e experiências pessoais que são difíceis de traduzir. Além do idioma, entender a cultura brasileira ajuda a compreender melhor a história, os valores e os desafios de cada paciente, tornando o cuidado mais adequado e realista.

Essa combinação de idioma e cultura fortalece a relação de confiança, melhora a comunicação e aumenta a adesão ao tratamento, tornando o cuidado mais humano e eficaz.

5. Quais são suas atribuições, sua autonomia profissional e como você trabalha em conjunto com outros profissionais de saúde, quando necessário?

Uma Nurse Practitioner em Psiquiatria é uma enfermeira de prática avançada especializada em saúde mental. Para exercer essa função, é necessário concluir o bacharelado em Enfermagem, seguido de mestrado ou doutorado com especialização em saúde mental, além da certificação do ANCC, obtida por meio de um exame rigoroso. Essa certificação concede a licença profissional para atuar nos Estados Unidos, garantindo competência clínica, tomada de decisão baseada em evidências e atuação ao longo de todo o ciclo de vida. O papel da PMHNPBC inclui avaliação do estado emocional e psicológico, diagnóstico de transtornos mentais, prescrição de medicações e acompanhamento contínuo do tratamento.

Com autonomia profissional para conduzir consultas e definir planos de cuidado, a PMHNP-BC também atua em parceria com outros profissionais de saúde, como psicólogos e médicos, sempre que necessário. O objetivo é oferecer um cuidado integrado, seguro e centrado no paciente, atendendo de forma completa às necessidades de saúde mental.

6. Como você enxerga o cuidado em saúde mental de forma integral, considerando a rotina, o contexto emocional e a história de vida do paciente?

O cuidado em saúde mental vai além de tratar sintomas isolados. Para mim, é fundamental entender a rotina, o contexto emocional e a história de vida de cada paciente. Isso inclui considerar experiências passadas, relações familiares, desafios culturais e, quando aplicável, o processo migratório. Com essa visão, o tratamento se torna mais personalizado, ajudando o paciente a lidar melhor com dificuldades e a melhorar sua qualidade de vida e bem-estar.

7. Qual mensagem você gostaria de deixar para a comunidade brasileira que vive nos Estados Unidos e busca mais equilíbrio emocional e qualidade de vida?

Minha mensagem para a comunidade brasileira nos Estados Unidos é que buscar ajuda em saúde mental é um ato de cuidado e coragem, e não algo para se envergonhar. Cuidar da mente é tão importante quanto cuidar do corpo, e pequenas mudanças no dia a dia podem trazer grande impacto no bem-estar.

Não hesitem em procurar apoio profissional, compartilhar suas experiências e adotar estratégias que promovam equilíbrio emocional.

Lembrem-se: é possível viver com mais qualidade de vida, resiliência e tranquilidade, mesmo diante dos desafios de morar em outro país.